O que Quer uma Psicanalista no 8 de Março?
Reflexões sobre Psicanálise
8 de março de 2026

O que Quer uma Psicanalista no 8 de Março?

Renata Passini

Autor

O que Quer uma Psicanalista no 8 de Março?

A psicanalista escuta com o corpo inteiro. E talvez esse seja um dos pontos menos ditos do nosso ofício. Porque esse corpo que escuta não fica pendurado na porta do consultório quando o expediente termina.

Ele sai dali e continua sendo o mesmo corpo que pega trânsito, responde a vida, lembra da lista de compra, acolhe o filho, conversa com o companheiro, sente falta de quem foi embora, administra a casa, tenta descansar e, muitas vezes, continua habitando a mesma cidade, a mesma cultura e, ao mesmo tempo, que produzem as violências que ela ouviu o dia inteiro.

Não existe uma mulher no consultório e outra fora dele. Existe uma só. Uma mulher que trabalha escutando o sofrimento de outras mulheres e que, ao mesmo tempo, também conhece por dentro o que significa viver sob tensão, sob excesso, sob vigilância, sob ameaça difusa, sob a exigência permanente de dar conta.

O Transbordamento do Consultório

Há dias em que o consultório transborda. As histórias não acabam quando a sessão termina. Elas continuam no corpo como uma espécie de resto. Uma pressão na nuca, um silêncio mais pesado no fim da tarde, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não se explica apenas pelo número de atendimentos.

Como se alguma parte de nós seguisse tentando metabolizar aquilo que escutou e que, de tão brutal, às vezes não encontra saída rápida nem palavras suficientes.

A Pergunta do 8 de Março

E, então, eu fico pensando que, talvez, a pergunta do 8 de março não seja apenas o que quer uma mulher, mas o que quer uma mulher que passa os dias recebendo pela escuta, o impacto das violências que recaem sobre outras mulheres, sem deixar de ser ela própria ou uma mulher também exposta a esse mundo.

O que quer uma psicanalista no 8 de março?

O que Ela Não Quer

Talvez ela não queira ser admirada pela capacidade de suportar o insuportável. Talvez ela não queira que a sua resistência vire elogio, quando tantas vezes essa resistência foi só o nome possível para continuar.

Talvez ela não queira mais um discurso bonito sobre força, justamente porque sabe o preço corporal, psíquico e íntimo que existe em ser sempre aquela que sustenta.

O que Ela Quer

Talvez ela queira uma vida menos atravessada pela necessidade de se recompor. Queira um cotidiano em que escutar a dor não custe o desaparecimento de si. Queira não precisar escolher o tempo todo entre sensibilidade e sobrevivência.

Queira fazer seu trabalho sem transformar o próprio corpo em depósito do indizível. Queira chegar em casa e poder realmente chegar. Queira repouso sem estado de alerta. Queira ter relações onde não precisa se defender de tudo.

Queira reconhecimento sem idealização. Queira cuidado sem ter de adoecer primeiro. Queira respirar sem sentir que isso, às vezes, já é um esforço.

Reflexão Final

Nesse 8 de março, talvez o que uma psicanalista queira não caiba em homenagem, rosa, frase pronta ou celebração protocolar. Talvez ela queira algo mais fundo e mais difícil.

Que a vida das mulheres deixe de ser tão frequentemente organizada em torno de medo, adaptação, sobrecarga e reparação.

E talvez queira também uma coisa muito simples, mas nada pequena: seguir escutando sem precisar perder de si.

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